sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Não odeio BBB e #LuizaqueestanoCanada

Escrevo este post pensando nos querid@s que apoiaram o que disse o jornalista Carlos Nascimento sobre o BBB e o já gasto meme #LuizaqueestanoCanada. Os argumentos usados são SEMPRE os mesmos (ou seja, falta criatividade e verdadeira análise crítica. Tudo não passa de mera reprodução): futilidade, limitação intelectual, pobreza cultural e blá blá blá.

Quero acreditar que os críticos (não falo da crítica fundamentada, bem construída e argumentada, claro) de plantão do BBB lêem mais livros e se aventuram em diferentes gêneros literários sempre que começa uma nova edição do programa. Devem ser leitores vorazes de pensadores como Nietzsche e Chomsky. Quero acreditar também que esses "críticos" (as aspas são indispensáveis) são cidadãos empenhados na construção de um país mais erudito: promovem e participam de rodas literárias, debates sobre ética e política, desenvolvem atividades intelectuais com comunidades carentes, acompanham de perto os políticos em quem votaram... Não basta não gostar de BBB, inteligente é odiar e deixar isso bem claro. Pergunto: pra quem?!

Quanto a coitada da #LuizaqueestanoCanada, começo a pensar que seus críticos não possuem senso de humor. E eu entendo. Afinal, estão tão empenhados em solucionar os problemas do nosso amado país e em serem excelentes cidadãos que o humor é supérfluo. Ou devem preferir o humor inteligente das peças de Oscar Wilde e William Shakespeare. A propósito, se puderem, me emprestem algumas obras desses autores. Ainda não tenho todas.

Não sou fã do BBB e já estou cansado da Luiza - que não está mais no Canadá. Mas considero chatos os "grandes intelectuais". Ficarei feliz em ouvir e debater novos argumentos sobre esses assuntos.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Desejo por resultados atropela a ética

O Portal Exame publicou na semana passada estudo realizado nos Estados Unidos que revela o que eu e muitos outros trabalhadores já conhecemos na prática: a exigência por desempenho cada vez melhor leva executivos a agir ilegalmente. A pesquisa mostrou que à medida que as empresas ganhavam mais reconhecimento, mais irregularidades eram cometidas. Gostaria de saber o que há de novo na pesquisa...

Numa esfera corporativa menor, experimentei essa cruel realidade de perto. Em 2006, quando fiz minha vida mudar totalmente o rumo, precisei buscar outros meios de sobrevivência e fui trabalhar como assessor de cliente em uma multinacional. O choque veio na primeira semana. Na sede insaciável de alcançar números cada vez maiores e superar todas as metas estabelecidas, éramos “motivados” a fazer uso de técnicas nada politicamente corretas: vendas casadas e informações enganosas de produtos absolutamente desnecessários.

O resultado não poderia ser outro: equipes desmotivadas, com graves distorções éticas, clientes insatisfeitos e muitas ações judiciais. No meu ingênuo princípio ético, fruto de uma formação religiosa ultra conservadora, tentei inutilmente dialogar com os meus superiores diretos algumas vezes. O máximo que consegui foi ficar na geladeira por 3 longos e difíceis anos e a fama de questionador.

Hoje, aliviado, olho para trás e sou grato por não mais trabalhar em um ambiente desses. Contudo, numa sociedade obsecada por números, resultados imediatos e vantagens, o comportamento ético e o respeito ao outro são considerados tolos e se apresentam como obstáculos a satisfação de objetivos individuais. Fica o questionamento: até onde meu desejo por resultados deve me levar?

domingo, 26 de setembro de 2010

Um mal que inferioriza e desumaniza...

Você já parou pra pensar o que o presidente do Irã, um jornalista e apresentador de reality show, um ganhador de reality show, uma publicitária e uma estudante de direito têm em comum? Vejamos:

“Nós não temos homossexuais no Irã.” (Mahmoud Ahmadinejad) “Homem hétero não pega AIDS.” (Marcelo Dourado) “Dourado (Marcelo Dourado) não é homofóbico não.” (Pedro Bial) “Não gosto desse cantor! Ele é muito viado!” (Publicitária) “Precisa ser tão 'garota' pra ser gay?” (Estudante de Direito)

Todas essas declarações, ainda que em medidas diferentes, são inegavelmente homofóbicas! É provável que você considere minha afirmação radical, exagerada e até infeliz. Eu entendo. Mas antes de tirar conclusões, é preciso entender que a homofobia faz uso de diferentes discursos e assume diferentes faces para se manifestar. Com isso, não poucas vezes parece invisível e até inexistente.

Buscar o entendimento do que é homofobia é o primeiro passo para que ela possa ser desmascarada. Gosto do que pensa o escritor ítalo-argentino Daniel Borrillo em seu livro Homofobia: História e crítica de um preconceito: “a homofobia é uma manifestação arbitrária que consiste em designar o outro como contrário, inferior ou anormal; por sua diferença irredutível, inferior ou anormal... desumaniza o outro e torna inexoravelmente diferente”.

A homofobia pode ter diferentes níveis, mas ainda assim é homofobia. Nem todo homofóbico, por exemplo, têm a ignorância e a coragem suficientes para, em cadeia nacional, declarar que a AIDS é uma doença de gays. Negar a existência dessa condição sexual (“Nós não temos homossexuais no Irã”) é tão nocivo quanto julgar o outro inferior por apresentar um padrão comportamental diferente daquele que a sociedade impõe (“Precisa ser tão 'garota' pra ser viado?”). A homofobia está presente em muitos espaços aparentemente tolerantes, mas agindo de forma silenciosa e violenta vai desumanizando o outro. Não poucas vezes, o próprio indivíduo é sua própria vítima: gays e lésbicas negando e hostilizando sua condição sexual.

Historicamente praticada pelos regimes ditatoriais e pelas grandes religiões monoteístas / patriarcais, a homofobia radical continua viva e atuante. É só lembrar das constantes violências que gays, lésbicas e travestis enfrentam constantemente em ambientes públicos e, até mesmo, privados. Nem os muitos anos de luta contra a pandemia da AIDS, por exemplo, foram suficientes para banir de vez o mito da AIDS como peste gay. Sem falar nos países onde a homofobia é punida com a morte.

A homofobia “polite” (educada), também chamada de política do armário, é outra medida da homofobia que faz com que pensemos que os homossexuais gozam de alguma tolerância sexual, dando uma falsa sensação de segurança. No entanto, quando nego aos gays o direito a filiação ou ao matrimônio, por exemplo, estou dizendo: “Você não é tão humano quanto nós heterossexuais por isso não tem o mesmos direitos”. Dificilmente percebemos esse tipo de manifestação homofóbica, pois costuma ser silenciosa e vestida de “amizade” dos gays. Você consegue pensar em algum?

A homofobia experimentada e reproduzida pelo próprio gay é o resultado de toda uma construção histórico-social que renega ao que está nessa condição, o direito de enxergar e aceitar a si mesmo. Ansioso para ser aceito pela coletividade, silencia o próprio desejo. E se mutila! Como consequencia, os gays passam a ser autores de comportamentos homofóbicos muitas vezes tão cruéis quanto os não gays. A rejeição das travestis, dos homens efeminados e das mulheres masculinas são uma pequena amostra.

Alguns acreditam que sociedade começa a demonstrar os primeiros avanços para uma convivência mais tolerante e justa. No entanto, penso que este assunto está longe de ser esgotado e mais ainda de ser superado. A atual ideologia homofóbica, como qualquer ideologia preconceituosa, precisa ser questionada de forma direta, sincera e corajosa.

domingo, 19 de setembro de 2010

Campus do Pici / Unifor: uma reflexão sobre o nosso individualismo

Uma cena corriqueira, mas difícil de aceitar...

Você corre para a parada de ônibus que fica a quatro quarteirões de casa debaixo de um sol que parece fritar sua pele e a careca que há muito ensaia aparecer. Na parada, um tumulto de pessoas visivelmente sonolentas e entediadas. Descendo a ponte, lá vem o Campus do Pici/Unifor lotado de estudantes universitários e alguns trabalhadores. Todos se preparam para a batalha: conseguir um espaço dentro do ônibus para chegar ao destino. Dê graças a Deus se conseguir ir pelo menos pendurado. Nessas horas, não posso deixar de pensar na porta do céu segundo os cristãos: estreita e são poucos os que passam por ela.

Na primeira viagem na linha Pici/Unifor, eu imaginei que as coisas seriam mais tranquilas com relação a tantas outras linhas nas quais eu já me aventurei. Afinal, na sua maioria, os passageiros são estudantes universitários e tendem a ser mais educados. Hoje, com vergonha, admito: puro preconceito da minha parte. Estudantes, via de regra, têm se mostrado mal educados e egoístas. Perdoem-me as exceções. Cabe aqui uma reflexão...

É curioso como tratam suas bolsas como extensão de si mesmos. Assim, como qualquer ser humano, as bolsas têm direito a espaço exclusivo, mesmo que isso implique em prejudicar a passagem e o espaço reservado para “outros” passageiros – que nesse caso são apenas obstáculos. Isso seria resultado de uma geração individualista e materialista, onde minhas coisas e eu somos mais importantes que o outro? Que percepção temos de quem é o outro? Quem é esse outro com o qual, ao que parece, eu não me identifico?

Se não bastasse, muitos [estudantes] sofrem de um surto de cegueira seletiva temporária. Como bem descreveu meu colega @chicofernando: “A maioria deles põe o fone no ouvido e entram no seu mundinho sem perceber os colegas carregando pilhas de livros”. Essa cegueira direcionada à coletividade e a solidariedade é crônica e embaça a visão da nossa humanidade. Em diferentes medidas, é a mesma cegueira que mantém no analfabetismo cerca de 16 milhões de brasileiros, que ignora os quase 200 homossexuais assassinados em 2009 só no estado da Bahia e que permite,todos os anos, a exploração sexual de milhares de crianças.

Enquanto nosso individualismo não for admitido como um elemento inerente e absolutamente nocivo da nossa condição humana, nenhuma mudança poderá ser efetivada. Precisamos tomar consciência de que estamos ligados a uma imensa teia social (ou rede, para usar um termo muito revisitado ultimamente) e que por isso, meus gestos e e decisões tendem a afetar outras pessoas. Que tal repensarmos nossa postura e valores enquanto passageiros, estudantes, profissionais, cidadãos e sobretudo enquanto seres humanos?

terça-feira, 29 de junho de 2010

Carta ao senhor Waldemar Menezes em resposta ao seu artigo publicado no jornal “O Povo” no dia 26/06/2010

Era pra ser um domingo como todos os outros: ler o jornal pela manhã e passar o resto do dia me preparando pra semana que começa. Ou seja, um corriqueiro e entediante domingo. Aliás, a vida, assim como os domingos, costuma ser corriqueira e entediante. Até que as pérolas do senhor Menezes começaram a saltar daquela fatídica página do jornal. Confesso que precisei ler umas duas vezes. Leituras rápidas e superficiais facilitam interpretações e julgamentos injustos. A cada declaração lida um tornado de pensamentos devastava minha inexistente tranqüilidade interior.

Senhor Menezes, tentando ser o menos injusto possível, quero fazer algumas considerações bem pontuais a respeito de algumas declarações suas. Declarações infelizes, claro! É interessante notar que o senhor, logo nas primeiras linhas, fala de “muita desinformação sobre a questão”. Na verdade, o senhor me parece um dos grandes desinformados a respeito de Legislação, Direitos Humanos, Ética, Liberdade de Pensamento e Expressão, Configurações Familiares e tantas outras coisas com as quais não quero desperdiçar palavras.

O senhor disse também em seu "premiado" artigo que a possível aprovação do projeto de lei 122/2006 “terá efeitos danosos”. Esqueceu, contudo, de citar que danos seriam esses. Sugiro que o senhor fundamente sua afirmação para então publicá-la. Também acredita que manga com leite faz mal a saúde e que passar em baixo de escadas trás azar?

Uma de suas melhores declarações foi “práticas públicas homossexuais”! O senhor estaria sugerindo que os gays deveriam manter-se no anonimato e nos guetos como foi (e ainda é) por tanto tempo? O que o chama de “excessos do movimento gay [que] já é tão grande”? Poderia me explicar o porquê de o senhor poder andar de mãos dadas com sua esposa, beijá-la em público e até gritar aos quatro cantos que a ama e os gays não? Em seu artigo, não falou em liberdade de expressão?

Em algum momento já se questionou onde, quando e por que surgiu esse modelo tradicional de família ao qual, acredito eu, o senhor se refere? Os contextos mudam e, com eles, homens e mulheres também devem mudar. A que valores se refere? Valores heterogemônicos de família? Talvez precise ler mais sobre novas configurações familiares. Questionar velhos conceitos é difícil, mas extremamente saudável! Vale a pena tentar!

O senhor acha realmente aceitável a demissão de um profissional ou a não admissão por causa de sua orientação sexual? Acha que é fácil provar um crime de preconceito sexual? Tem conhecimento do número de gays que são discriminados, agredidos e mortos neste país? Já teve sua humanidade violada? Já teve seus direitos básicos negados?

Uma colocação sua em especial me deixou apreensivo. Disse o seguinte: “O cerceamento a quem discorda dos excessos do movimento gay já é tão grande, que se tornou um risco fazer um comentário como este, sem sofrer retaliação desses setores”. Explico o motivo da minha apreensão: espero sinceramente que ao usar a palavra ‘risco’ o senhor não esteja, sutilmente, taxando de bandidos “esse segmento da sociedade". Ademais, idéias existem e são expostas a fim de serem questionadas. É assim que se constrói o saber. Conhecimento só existe quando é compartilhado!

Senhor Menezes, não espero que levante a bandeira pela causa gay. Só conhece a dor do preconceito quem já foi vítima dele. Espero, contudo, que o senhor possa considerar as opiniões contrárias até agora manifestadas. Os gays, “esse segmento da sociedade”, lutam apenas pelo direito de serem eles mesmos. Não se quer privilégios, apenas ter orgulho de quem se é. Nada mais!

domingo, 21 de março de 2010

Um velório incomum

Havia me mudado para lá há poucos dias. “As ruas são entes viventes”, como disse João do Rio. Sendo assim, a Visconde do Rio Branco sofre de um tipo de transtorno bipolar. À noite, o silêncio e calmaria escondem o movimento frenético e enlouquecedor do dia que, não poucas vezes, costuma fazer vítimas fatais e juntar personagens curiosos.

Aquelas três mulheres, na esquina do prédio onde moro, ao redor daquele corpo caído não foi lá uma grande recepção. Mesmo constrangido me aproximei. No entanto, optei por uma distância na qual eu não fosse facilmente notado. Não quis interromper aquele momento de dor. Já próximo e para minha surpresa, estavam calmas, mas muito solenes. Pude finalmente ouvi-las.

Uma senhora baixinha e gorducha, que era chamada pelas outras de Mazé, com a voz pesada falava da sua experiência com o defunto. O conhecera há três anos quando ele começou frequentar a rua e ficar pelos cantos. Nos primeiros dias, muito desconfiada, D. Mazé o ignorava. No entanto, percebendo a inofensividade do recém chegado, passou a oferecer-lhe comida. “No começo eu dava o que sobrava do almoço, mas depois eu até cozinhava algumas coisas pra ele. Ele ficava tão feliz!”

A mais jovem entre elas, passava boa parte do tempo de cócoras como que querendo acarinhar o corpo, mas tinha receio. O receio talvez se devesse ao fato de que corpos inertes costumam mexer com a nossa frágil segurança nisso que damos o nome de vida. Eles nos mostram o quanto nós, seres que respiramos, somos frágeis e vulneráveis. “Eu até me sentia segura com a presença dele quando eu vinha tarde da noite. Mesmo sem nunca termos nos falado muito.” A essa altura eu já havia sido notado pela jovem, mas fui ignorado. “Como ninguém sabia o nome dele, a gente o chamava lá em casa de Chico. A rua todo passou a chamá-lo assim. Ele nunca reclamou, pelo contrário, até atendia. Era tão resignado!” Achei ter visto um tímido sorriso em seus lábios.

Enquanto a terceira mulher falava fui me aproximando. Ela morava sozinha desde que resolveu deixar o marido há dois anos. Chico sempre lhe fazia companhia. Às vezes por horas. No entanto, nunca soube nada a seu respeito: de onde veio, se veio parar aqui sozinho, se alguém o deixou, se sentia saudades do passado. Não sabia nem mesmo a sua idade. “Nunca tive coragem de dividir o teto com ele. Se estivesse comigo, talvez isso não tivesse acontecido.”

Num dado momento, notei que as três me olhavam. Quase morri de vergonha. Eu era um intruso naquela reunião familiar. Na verdade um velório a céu aberto. Dei boa noite e fui logo me desculpando. Uma delas, a senhora gorducha, me reconheceu. “Você não é moço que se mudou no final de semana?” Consenti com a cabeça. “Não teve tempo de conhecer o Chico, né?” Procurei saber o que fariam com o corpo. Logo começaria a cheirar mal, já que o atropelamento se deu no fim da tarde e a noite já avançava. “Não conheço nenhum cemitério para cachorros na cidade. Mesmo que tivesse, seria muito caro. Podemos enterrá-lo no meu jardim. É grande e bem cuidado.” Fui pra minha casa. Não quis ver a remoção do corpo. A morte ainda me amedronta.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Carta aos meus PEQUENOS

São quase quatro meses desde que nos vimos pela primeira vez. Lembro-me bem daquela tarde. Eu estava ansioso para saber o que nos aguardava. Ansioso para colocar a prova o que havíamos aprendido na formação. Por mais que negue, sempre quis mudar o mundo. Parece ridículo, eu sei! Mas era esse o meu desejo naquele dia.

Era por volta da uma e meia da tarde e vocês já estavam lá! Eram quase trinta. Pensei que iria me desesperar. Fiquei assustado! Entraram na sala e desde o primeiro momento vocês já mostraram a que vieram: desafiar-nos, nos testar! Todos falavam e gritavam ao mesmo tempo! “Meu Deus, o que é isso?”, pensei. Comecei a desconfiar daquilo que estava por vir. Saímos, Priscila, Carla e eu, arrasados naquele dia. Estávamos cansados e tensos.

Os dias iam se passando e minhas suspeitas iam se confirmando. Vocês transformariam minha vida num inferno e tornariam minha ida à Maria Odnilra um verdadeiro sacrifício. Não prestavam atenção em nada do que dizíamos, não faziam o que pedíamos, fugiam da sala e brigavam entre si. Vocês faziam com que me sentisse um fracasso. Tive vontade de desistir! Mas não podia fazer isso! Desistir seria mais difícil do que ir em frente. Sendo assim, continuamos a jornada. Repensamos nossa metodologia, nossa abordagem, nossa postura em sala de aula. Daí vieram as regras de convivência, o sinal de silêncio (alguma vez ele realmente já funcionou?), as advertências e as “punições”. Questionamos nossa comunicação e concluímos que havia ruídos e obstáculos. Decidimos então, partir de onde vocês estavam, daquilo que realmente entendiam: a fala e o fazer. Assim, surgiram as primeiras entrevistas, as primeiras gravações. Como fiquei orgulhoso! Vocês não sabem, mas foi a primeira vez que por vocês chorei de satisfação. Calma, não se animem, vocês não deixaram de nos dar trabalho. Muitos tiveram que “voltar pra casa mais cedo” e outros foram “convidados” a deixar a oficina definitivamente. Não pense que isso era fácil para nós. Não era! Angustiamo-nos ainda muitas vezes. A diferença é que agora já tínhamos idéia de que caminhos percorrer.

Nossa certeza de que vocês nasceram pra dar certo só aumentava. A convicção de que nenhum de nós (alunos e mediadores) seria o mesmo e, as respostas que vocês nos davam era o que nos motivava. Eu quase não acreditei ao ouvir os primeiros rádios teatro que saíram com tanta dificuldade. Lembram? Fui no ônibus rindo a toa com o gravador no ouvido. Ouvi uma, duas, três, quatro vezes... Alguém que me observava devia se perguntar quem é esse louco que não para de rir e ouvir o que sai desse aparelho. Era o som da vitória! Sem perceber ou fazer qualquer esforço, eu já os amava! Amava tanto que mal via a hora de reencontrá-los. Contava os dias para estar com vocês.

Hoje é o último encontro da formação de radialistas. Espero, contudo que não seja o último encontro de nossas vidas! Sentirei falta das risadas e dos abraços. De poder vê-los crescendo e amadurecendo. Vocês hoje são radialistas. Não porque eu ou qualquer outra pessoa esteja dizendo, mas porque vocês acreditaram e fizeram por onde. Tenho falado demais. Para encerrar dedico um trecho de uma música do cantor que, como nenhum outro me faz lembrá-los: Michael Jackson. O título em português é “Cure o Mundo” (Heal the World): “Salve o planeta / Faça dele um lugar melhor / Pra você e eu e toda a raça humana / Tem pessoas morrendo / Se você se importa o suficiente com os vivos / Faça do mundo um lugar melhor / Para você e para mim... / Parece que sempre o amor é suficiente pra nós crescermos / Então faça um mundo melhor / Faça um lugar melhor.”

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Mudou você, ou mudei eu?

Outro dia estava na sala dos professores de uma das escolas em que trabalho como educador. Para mim essas salas são sempre entediantes. Professores costumam ser entediantes. Não lhe olham, não lhe cumprimentam e o pior, nunca lhe oferecem o lanche. Deve estar na minha cara que eu não vou aceitar. Para eles devo ser apenas um intruso de mais um projeto social chato. Enquanto esperava não sei o que, vi um texto em cima da mesa. “Deve ser mais uma daquelas correntes bestas ou um texto medíocre de auto-ajuda”, pensei. Mas me chamou a atenção o fato do texto estar colado na capa do livro de ponto dos professores. Falta de educação ou não, comecei a lê-lo. À medida que ia lendo as palavras daquela professora, engolia meus preconceituosos pensamentos...
Eu já tentei de tudo com você: bons modos, maus modos, gritos, chantagens,
exigi, insisti, implorei, instei... Você continua não respondendo a minha
didática elaborada... Por você me tornei insegura (o). Analisei os conteúdos,
contestei a validade de alguns, aprofundei, condensei... Achei parcos os meus
recursos. Pedi ajuda. Comparei meus instrumentos de aprendizado. Discuti com
colegas. Fui ao supervisor, ao orientador...
Lembrei-me do Segura Essa Onda. De como cheguei em agosto antes do inicio das oficinas. Ansioso, não sabia exatamente o que me esperava. Sabia que teria surpresas, mas não tinha idéia da força dessas surpresas. As leituras de Freire e tantos outros textos, as discussões, as trocas de experiências, os planejamentos, coisas absolutamente necessárias e enriquecedoras. No entanto, nada disso pode se comparar ao que tenho, ou melhor, temos vivido e aprendido lá dentro, entre os muros da escola. Perdi a conta das vezes em que voltamos pra casa arrasados, nos sentindo as piores e mais incompetentes criaturas. Não conseguíamos nos comunicar com os alunos que estavam tão próximos de nós e distantes ao mesmo tempo. Éramos desafiados, provocados. “Muda o plano de aula, esse não esta dando certo”, dizíamos quase a beira de lágrimas. Outras vezes, no entanto, éramos surpreendidos e presenteados por um avanço que poderia parecer insignificante ou por um simples gesto de confiança que nos devolvia o fôlego e a esperança! Citando Freire em Pedagogia da Esperança: “A prática educativa implica ainda processos, técnicas, fins, expectativas, desejos, frustrações, a tensão permanente entre prática e teoria, entre liberdade e autoridade (grifo meu), cuja exacerbação, não importa de qual delas, não pode ser aceita numa perspectiva democrática, avessa tanto ao autoritarismo quanto a licenciosidade.”
É por isso e por muito mais que pergunto: “Aí, então, mudou você, ou mudei eu?”

domingo, 19 de julho de 2009

“Devia ter complicado menos, trabalhado menos, ter visto o sol se pôr...”


Era só mais um entediante final de tarde de domingo. Como não tínhamos muito que fazer, optamos por um daqueles programinhas clichês, tomar sorvete e dar uma volta na praia. Calçadão cheio. Meu Deus, pensei, eu não sou o único entediado e sem criatividade na cidade. Isso fez com que eu me sentisse pouco melhor. Alguém, não lembro exatamente quem, sugeriu que parássemos um pouco já que em alguns minutos poderíamos ver o pôr do sol. Era próximo a uma colônia de pescadores.


Ficamos hipnotizados. Não tentarei descrever o pôr do sol. Acho desnecessário. Talvez porque para mim esse é um fenômeno não só abstrato, mas também metafísico. Tantas coisas me vieram à cabeça naquela tarde. Reflexões que vão se desenrolando e se entrelaçando gradativamente.


Observo tons diferentes produzidos por um mesmo fenômeno! Amarelos, laranjas e vermelhos se apresentam como um balé de cores tão bem ensaiado, tendo como palco o mar e como arquibancada a praia. Como platéia, diferentes elementos da natureza reunidos para assistir a um mesmo espetáculo. O astro rei vai então delicadamente tocando e mergulhando na infinitude do mar.


Não consigo deixar de me impressionar com sua grandeza que me convida a admirá-lo. É como se dissesse: “Vem e me olha! Grande sou eu!” Sinto minhas preocupações e ansiedades se encolhendo dentro de mim como se estivessem envergonhadas. Essa grandeza me emudece, me leva a perceber o silêncio no seu espetáculo. Ele vai se recolhendo calado ao mesmo tempo em que a multidão de vozes se aquieta dentro de mim e posso então ouvir meu próprio silêncio.


Silêncio que há muito tempo não encontrava e que tão fácil costumo perder. Começa a brotar em mim um calor, uma centelha de celebração. Quero celebrar a vida! E como a vida depende dele para prosseguir, pois é dele que extrai suas forças!
Sentindo a brisa como que me sussurrando essas coisas, levantei-me cantarolando Epitáfio dos Titãs. Torcendo para que num futuro próximo eu não faça dela a minha Lamentação*.

* Lamentação: canto forte e prolongado, por vezes de caráter religioso e ritualístico, por meio do qual se deplora um infortúnio público ou pessoal. No catolicismo, conjunto de leituras durante os três últimos dias da Semana Santa, que pertencem ao ofício de Trevas e cujo texto é constituído dos versículos das Lamentações de Jeremias

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Uma História da Praça

Quem vai ao Passeio Público durante o dia tem a idéia de estar em outro lugar; um mundo paralelo que não o centro da cidade. Do lado de fora o ritmo é frenético. Um calderão fervente com lojas de artesanatos de cipós, lojas de equipamentos, casarões como a Associação Comercial do Ceará e o Sobrado José Lourenço, pontos de venda de confecções, bares, motéis, prostitutas e vendedoras ambulantes nas calçadas. Bem próximo dali está o Mercado Central, o Teatro José de Alencar e a Praça dos Leões. Lá dentro, porém o clima é de tranquilidade e nostalgia até. O lugar esconde segredos e histórias do passado e do presente.

Todo começo de noite era a mesma coisa. Por volta das 19h, Paulete, como foi “batizada” pelas mais velhas, começava seu ritual de preparação para ir ao trabalho. Depois de um cuidadoso e demorado banho, era a vez dos cremes (adoraria usar os da Victoria’s Secret, mas na época o que ganhava ainda não permitia tais extravagâncias). Arrumar o cabelo e a maquiagem era parte do ritual que mais lhe dava trabalho. Gostava disso quando ainda não era uma obrigação.

Por volta das 20h lá ia Paulete, ‘toda se quebrando’ em direção ao Passeio Público. O local na verdade se chama Praça dos Mártires. Projetada em 1820 por Silva Paulet, tenente coronel do Real Corpo de Bombeiros, autor do primeiro plano urbanístico para a então Província do Ceará. Ambígua, afamada por ser um dos principais pontos de prostituição da cidade e marco de importantes eventos históricos de Fortaleza. Em 1830 foi palco da execução de revolucionários da Confederação do Equador como Padre Mororó e Pessoa Anta. Daí seu nome. No no final do século XIX e início do XX a praça era frequentada pela elite da capital alencarina.

Quando chegava à praça, Paulete tratava logo de cumprimentar as prostitutas e outros travestis que trabalham no local. Nao eram necessariamente amigos, noentanto diante do perigo a que viviam expostos o corporativismo era indispensável. Em seguida, caminhava até o famoso
baobá de 39 metros plantado por Senador Pompeu em 1910. O baobá africano é um dos atrativos naturais da praça junto com outras diversas árvores centenárias. Alí permanecia alguns minutos em silêncio, como se estivesse fazendo uma prece. Na verdade, sempre admirou a força e a resistência da árvore. Ser travesti não era nada fácil ainda mais quando se é negro. Essa árvora tem a sua essência negra como a minha, é uma guerreira, dizia. Como pode, se perguntava, sobreviver por 100 anos? Quantos mudanças vira acontecer? Quantos histórias acompanhou? A quantos casais apaixonados serviu de abrigo? A quantos trabalhadores exaustos refrescou com suas sombras? Quantas crianças brincaram ao seu redor? Desejava ser tão forte e resistente quanto o Baobá, pois seu trabalho era duro e precisava de muita força e sorte. Assim como o Baobá, ouviria muitas histórias de amor e desamor, seria para alguns não mais que uma diversão ou alento logo esquecido.

A Praça também foi palco das
primeiras partidas de futebol do estado, disputadas por marinheiros de navios ancorados no porto da cidade, ingleses residentes em Fortaleza e cearenses da classe alta. Décadas depois, muita coisa nao mudou nesse sentido. Muitos dos clientes de Paulete e suas amigas eram homens da classe alta cearense, muitos turistas estrangeiros e até alguns jogaderes de futebol. Esses dois últimos eram os que pagavam melhor e não costumavam pechinchar.
Hoje, quando vem ao Brasil não perde a chance de ir à Praça acompanhada de seu marido alemão, e tem consigo algumas certezas: a de que teve sorte e a de que aquele lugar faz parte de sua hsitória assim como ela faz parte da história daquele lugar. E tem orgulho disso.

domingo, 7 de junho de 2009

Nossas histórias...

Experimentara recentemente a liberdade de deixar a casa dos pais para ir morar só. Estava orgulhosa de si, afinal tinha apenas 22 anos e já desfrutava da sua independência. Nada de regras castradoras, satisfação pra dar, horários pré-estabelecidos e namorados pra pegar no pé. Queria viver. E viver do seu jeito. Naqueles dias sua ansiedade era visível! E não era pra menos, pois sair de Fortaleza para passar o carnaval nas famosas e cultuadas ladeiras de Olinda com os amigos não era algo comum na sua vida. Ela era só euforia. A palavra de ordem era: divertir-se! Antes de embarcarem alguém em tom de brincadeira alertou: “Cuidado, as ladeiras de Olinda reservam muitas surpresas! Não vão se apaixonar por lá!” Polly riu...

Os festejos começaram já no aeroporto onde foram recebidos por uma animada banda de frevo. As ruas da cidade estavam coloridas e tomadas de pessoas de todos os lugares. Vestidas as fantasias, trataram logo de se misturar aquela multidão. A cada ladeira que descia e banda que tocava seu corpo fervia de prazer, euforia e sensualidade.


Era o terceiro dia de carnaval. O improvável aconteceu. Daniel poderia ter sido mais um dentre tantos foliões. Meses mais tarde, em alguns momentos Polly desejaria que tivesse sido assim, mas não foi. O desejo parecia calar a distância e tantos outros obstáculos que os separava, que os separa!

Essa história ainda esta sendo construída. Não é um conto de fadas escrito pelos irmãos Grimm ou mesmo um roteiro para uma deliciosa comédia romântica. É uma história real, com personagens e dramas reais. Uma história que fala da dificuldade e do esforço para ser feliz mesmo quando se ama.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Chanson - Alfred du Musset


Disse a meu peito, a meu pobre peito:

- Não te contentas com um só amante?

Pois tu não vês que êste mudar constante

Gasta em desejos o prazer do amor?



Êle respondeu: - Não! não me contento;

Não me contento com um só amante.

Pois tu não vês que êste mudar constante

Empresta aos gozos um melhor sabor?



Disse a meu peito, a meu pobre peito:

- Não te contentas desta dor errante?

Pois tu não vês que êste mudar constante

A cada passo só nos traz a dor?



Êle respondeu: - Não! não me contento,

Não me contento desta dor errante...

Pois tu não vês que êste mudar constante

Empresta às mágoas um melhor sabor?
/////// /////// /////// /////// /////// /////// ///////
Cor do texto
Certa vez, quando conversava com uma amiga contei-lhe do meu desejo de ter em minha lápide essa poesia de Musset. Ela ficou chocada...
Tentei explicar-lhe que um amor não exclui outro assim como o desejo. No final, somos o resultado de tudo o que amamos, de tudo o que desejamos...

terça-feira, 14 de abril de 2009

ALGUÉM PODE OUVIR?!

Confesso que no colégio biologia nunca foi meu forte, portanto posso ser considerado um analfabeto funcional no que diz respeito a conhecida e amada (odiada por muitos também, claro!) Teoria da Evolução de Darwin. O fato é que se o processo de evolução não parou desconfio que logo (é questão de uns poucos milhares de anos), devido à seleção natural*, os seres humanos perderão um dos ouvidos e ganharão mais uma boca. Nesse caso talvez fosse apropriado chamar de Involução! Não conseguimos ouvir o outro. Estamos o tempo todo falando, falando, falando...

Pensemos! Quando foi a ultima vez que você conseguiu, em silêncio, parar por 15 minutos pra ouvir as dores e o sofrimento de alguém? Quando foi que percebeu que o outro estava sofrendo (isso não é nada fácil!) e disse: “Senta ai, meu camarada! Agora fala tudo o que esta te incomodando!”? Encontro dezenas de pessoas ávidas por alguém que as ouça, mas são raras as que querem ouvir! Talvez por isso o número de psicólogos vem aumentado tanto e por isso também as pessoas me pareçam mais infelizes. Afinal, porque as pessoas não ouvem? Tenho algumas suspeitas...

Corremos do problema alheio! Acreditamos que ouvi-los é assumi-los. No entanto, a maioria das pessoas ao falar não querem do ouvinte uma solução, apenas um ouvido. Não temos a obrigação de dar as respostas!

Vivemos em um mundo altamente competitivo e individualista. O meu sucesso, na maioria das vezes, depende do seu fracasso. Já temos problemas demais, não sobra espaço pro outro. O bem estar é pregado como um estado individual.

Vivemos na era da informação. São milhares e diversas e não sabemos o que fazer com a maioria delas. Logo, ouvir o outro é acumular mais informação e conseqüentemente problemas.
Diante disso, quem se dispõe a ouvir corre o risco de se sobrecarregar e não ser visto como alguém que também precisa ser ouvido. Ou a natureza cometeu um grande equívoco nos dando dois ouvidos e uma boca, ou estamos nos colocando contra a ordem natural das coisas!

*Só pra ajudar os desinformados como eu, segundo a Wikipédia (sei que não é muito acadêmico usar fontes como essa...), “seleção natural é quando características favoráveis que são hereditárias tornam-se mais comuns em gerações sucessivas de uma população de organismos que se reproduzem, e que características desfavoráveis que são hereditárias tornam-se menos comuns”, ou seja, a natureza se encarrega de dar cabo de algumas características não utilizadas pelos seres.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Dulce

Eu a conheci na faculdade num encontro de alunos. No começo estava calada, com um ar distante. Talvez estive tímida. Afinal, éramos só alguns desconhecidos. Depois, sutilmente, Dulce começou a existir entre nós. Apresentamos-nos e trocamos mais algumas palavras. Seu sorriso não saia dos lábios enquanto falava. Seu olhar tinha um quê de sonhadora. A pouca altura e simpatia lhe davam um aspecto doce. Doce, não frágil! A sua beleza era diferente. Não vinha de um corpo esculpido com horas de malhação pesada. Nem de tratamentos intermináveis em salão de beleza. Também não andava como um cabide de grifes famosas. Quando voltávamos pra casa – nos descobrimos vizinhos – Dulce não parava de falar. Falava do curso, dos colegas de faculdade, da dificuldade em se adaptar etc. Falou também do que esperava de um homem. Queria um amor, queria um amante! Queria um companheiro! Não queria um provedor. Também não queria um galã de cinema. Só queria alguém pra amar e ser amada! Alguém com quem pudesse viver alguns de seus sonhos de adolescente. Finalmente chegamos em frente ao prédio onde morava, cerca de 30 andares, mais parecia um castelo. O castelo de Dulce. Minutos depois eu descobriria que não era bem assim.


Filha do interior do Ceará, Dulce foi criada, pra ser “moça de boa família”. Sua mãe a ensinou lavar, passar, cozinhar bem, e ainda fazer bordado! Fiquei estupefato! Ainda existem moças de 19 anos que aprenderam a bordar pra arrumar um “bom partido”. Sai de casa poucas vezes e quase sempre acompanhada de uma velha empregada da família ou da mãe. Comecei a entender sua história. Não morava exatamente um castelo, mas numa masmorra sempre a espera de um príncipe, mas não os dos contos de fadas. Mãe e filha esperavam coisas tão diferentes de um relacionamento. Uma espera amor a outra o via como uma possível consequência do casamento, acreditando que estabilidade financeira e conforto são mais importantes. Voltei pra casa intrigado e pensativo. O que as pessoas realmente esperam dos relacionamentos? O que é importante que o outro tenha para que eu decida amá-lo? Até que ponto realidades sociais, econômicas e culturais determinam minhas escolhas amorosas?

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Os "estacionamentos" e seus "guardadores..."

Sair de casa em períodos de grandes eventos e festas definitivamente não é uma boa idéia. O transporte público além de superlotado é quente, desconfortável e inseguro. Quando optamos por sair de carro mais dificuldades: não só o trânsito é um caos como encontrar um lugar pra estacionar é sempre uma tarefa que exige paciência, determinação e muito bom humor. Se não bastasse tudo isso, ainda temos que suportar o abuso e a intimidação dos chamados flanelinhas. Eles são uma mal que se espalhou pelo país já faz algum tempo, contudo, em períodos como o do carnaval eles se multiplicam e se tornam ainda mais perigosos. Parecem estar a cada ano mais organizados, uma verdadeira máfia. Em determinados locais eles usam um colete que os identificam e distribuem uma espécie de passaporte, fabricado artesanalmente, com valores que podem variar de R$ 3,00 a R$ 5,00 exigindo pagamento adiantado!

Dias desses quando questionei um deles, pois não agüentava mais aquela situação – eu e minha mania de questionar as coisas! – o tom da resposta foi bastante ameaçador. Segundo ele, estávamos pagando-o para “olhar o carro”, mas se não quiséssemos ele não poderia se responsabilizar por nada que acontecesse com o veículo. E quando eu estava prestes a dizer-lhe algumas coisas os amigos “deixa disso” não deixaram!

Sai sentindo-me lesado! Lesado pelo flanelinha que estava nos extorquindo. Quem era a maior ameaça naquela hora se não ele mesmo?! Senti-me lesado e desprotegido pelo Estado que cobra uma carga tributaria pra lá de pesada a fim de nos garantir proteção e inibir esse tipo de prática e não faz. Decepcionado com a população que não se posiciona diante de abusos como esses. Inclusive meus próprios amigos! Mas o que fazer? Se recusar a pagar? E depois que vai ressarcir o prejuízo causado pela não “prestação de serviço” do flanelinha?

O que me restou foi tentar aproveitar o carnaval assumindo o prejuízo diário com os “estacionamentos” e seus “guardadores”. Quem sabe um dia nossos impostos e nossa policia começam a funcionar e com isso possamos sair de casa mais tranquilos...

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

A difícil tarefa de ser...

Desde muito cedo nos acostumamos com alguém nos dizendo o que devemos fazer, querer e SER! Quando criança eram comuns comentários como: “Ele é tão fofinho...”, “O irmão é tão magrinho, como pode né?” ou pior, “Tiago é o gordinho?” Na adolescência, os comentários foram se transformando (pra pior, claro): “Tiago é tão bonitinho, pena que é gordinho”, “Tá vendo meu amor, os magrinhos ficam bem com qualquer roupa. Devia pensar em emagrecer”, “Como você quer que ela goste de você se você não emagrece?”. Naquele momento todos diziam o quê ou quem eu deveria ser, aquilo que eles consideravam o melhor pra mim (ou seria pra eles?) ignorando quem eu realmente era (sou). Com exceção de uma vizinha, que era considerada puta e devassa pelas demais, ninguém nunca me disse o contrário. Ela foi a primeira (e a única na minha infância) a me fazer enxergar quem eu realmente era. Penso quantos já passaram ou tem passado por experiências parecidas seja pelo peso, pela cor, orientação sexual etc.


A família é, sem dúvida, o primeiro referencial de valores e comportamentos e a responsável pela educação doméstica básica, que vai desde valores éticos e morais a certas convenções sociais necessárias (comer de boca fechada e não limpar o nariz em público são apenas algumas delas). Mas essa mesma família muitas vezes nos cerceia a liberdade de escolha em favor de uma moral ou das aparências. Acreditando que somos de fato sua extensão, no convívio familiar muitas vezes a individualidade é assunto ignorado. Com requintes de crueldade, criam-se mecanismos “legitimados” de punição e controle. Incentiva-se a hipocrisia e a vida dúbia. ”Você pode ser gay, desde que não deixe isso explicito para os vizinhos e não traga pra casa seu parceiro ou parceira”. Ele é gay, mas é boa pessoa, dizem alguns”. “Tão bonita, pena que é gorda”. “Coitada, ela ainda está solteira!”, “Ele até que é um preto bonitinho.” E pra citar só alguns exemplos.


Repensar a relação com o próprio corpo e conseqüentemente o conceito de beleza é fundamental para que se possa descobrir quem se é realmente . Porque tenho que ser magro e/ou malhado? Porque reduzir meu corpo a uma máquina de músculos? Por que cabelo bom é o liso e o ruim é o crespo? Por que sempre o sex symbol do momento nunca é negro ou negra?

Em algum momento de nossa vida, quando tentarmos romper com tudo isso – os que tiverem coragem, claro – perceberemos o quanto é difícil assumir controle da própria vida e o quanto é difícil fazer as próprias escolhas e assumir as conseqüências, sejam elas positivas ou negativas. Por outro lado, só assim poderemos desfrutar o que é liberdade. A sociedade, de um modo geral, não está preparada para aqueles que decidiram assumir a difícil tarefa de ser eles mesmos! Não podemos esperar ate que ela esteja. Ser eu mesmo implica no enfrentamento de conflitos internos e externos. Exige disposição e coragem para entrar em contato com as próprias feridas e traumas. Ser eu mesmo é não se desviar do espelho, mas olhar-se e como resultado admiração e amor! Ser eu mesmo é, sobretudo ser livre!

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Felicidade...

“Às vezes, quantas!... sinto um quer que seja, uma ligeira emoção, como um sorriso que vem despontando em minha alma. É talvez a felicidade, digo baixinho; e fico muda e estática para não perturbar dentro em mim esse débil raio que vai nascendo. Mas de repente some-se tudo, como se um abismo se abrisse: procuro minha alma nesse vácuo imenso, e não a sinto.”

Foi lendo este trecho de um dos romances de José de Alencar que me saltou à mente a parábola: que é a felicidade é como uma ilha paradisíaca admirada e desejada de longe por um marujo exausto de tantas viagens e quanto mais a deseja mais a vê afastar-se até que só reste a esperança de uma nova oportunidade.

À que se destinam todos os esforços e toda existência humana se não à busca da felicidade? A felicidade é o fim principal – e talvez único – de toda atividade humana. Por ela homens e mulheres trabalham arduamente dia e noite, pois esperam que o resultado de tamanho esforço lhes traga felicidade. É por ela também, que casais decidem partilhar suas vidas. Que religião não promete aos seus fiéis a felicidade como resultado de sua fidelidade? Todavia, irônica e tragicamente, o resultado tem sido contrário: nunca se trabalhou tanto e nunca se foi tão infeliz, nunca se viu tanta separação e as relações nunca foram tão efêmeras e superficiais. Muitos centros espíritas estão lotados bem como os templos católicos, protestantes, budistas e outros. Somos uma geração decepcionada com a religiosidade (com o cristianismo em especial?). Sabendo disso o mercado religioso descobriu seu principal produto: um discurso que promete a felicidade apesar de qualquer adversidade interna e externa, chegando muitas vezes ao que Nietzsche chamaria de alienante.

Em todo sonho e em todo desejo, em toda sociedade e em toda cultura, em toda crença e em toda ideologia existe algo de comum: o desejo de ser feliz!