terça-feira, 14 de abril de 2009

ALGUÉM PODE OUVIR?!

Confesso que no colégio biologia nunca foi meu forte, portanto posso ser considerado um analfabeto funcional no que diz respeito a conhecida e amada (odiada por muitos também, claro!) Teoria da Evolução de Darwin. O fato é que se o processo de evolução não parou desconfio que logo (é questão de uns poucos milhares de anos), devido à seleção natural*, os seres humanos perderão um dos ouvidos e ganharão mais uma boca. Nesse caso talvez fosse apropriado chamar de Involução! Não conseguimos ouvir o outro. Estamos o tempo todo falando, falando, falando...

Pensemos! Quando foi a ultima vez que você conseguiu, em silêncio, parar por 15 minutos pra ouvir as dores e o sofrimento de alguém? Quando foi que percebeu que o outro estava sofrendo (isso não é nada fácil!) e disse: “Senta ai, meu camarada! Agora fala tudo o que esta te incomodando!”? Encontro dezenas de pessoas ávidas por alguém que as ouça, mas são raras as que querem ouvir! Talvez por isso o número de psicólogos vem aumentado tanto e por isso também as pessoas me pareçam mais infelizes. Afinal, porque as pessoas não ouvem? Tenho algumas suspeitas...

Corremos do problema alheio! Acreditamos que ouvi-los é assumi-los. No entanto, a maioria das pessoas ao falar não querem do ouvinte uma solução, apenas um ouvido. Não temos a obrigação de dar as respostas!

Vivemos em um mundo altamente competitivo e individualista. O meu sucesso, na maioria das vezes, depende do seu fracasso. Já temos problemas demais, não sobra espaço pro outro. O bem estar é pregado como um estado individual.

Vivemos na era da informação. São milhares e diversas e não sabemos o que fazer com a maioria delas. Logo, ouvir o outro é acumular mais informação e conseqüentemente problemas.
Diante disso, quem se dispõe a ouvir corre o risco de se sobrecarregar e não ser visto como alguém que também precisa ser ouvido. Ou a natureza cometeu um grande equívoco nos dando dois ouvidos e uma boca, ou estamos nos colocando contra a ordem natural das coisas!

*Só pra ajudar os desinformados como eu, segundo a Wikipédia (sei que não é muito acadêmico usar fontes como essa...), “seleção natural é quando características favoráveis que são hereditárias tornam-se mais comuns em gerações sucessivas de uma população de organismos que se reproduzem, e que características desfavoráveis que são hereditárias tornam-se menos comuns”, ou seja, a natureza se encarrega de dar cabo de algumas características não utilizadas pelos seres.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Dulce

Eu a conheci na faculdade num encontro de alunos. No começo estava calada, com um ar distante. Talvez estive tímida. Afinal, éramos só alguns desconhecidos. Depois, sutilmente, Dulce começou a existir entre nós. Apresentamos-nos e trocamos mais algumas palavras. Seu sorriso não saia dos lábios enquanto falava. Seu olhar tinha um quê de sonhadora. A pouca altura e simpatia lhe davam um aspecto doce. Doce, não frágil! A sua beleza era diferente. Não vinha de um corpo esculpido com horas de malhação pesada. Nem de tratamentos intermináveis em salão de beleza. Também não andava como um cabide de grifes famosas. Quando voltávamos pra casa – nos descobrimos vizinhos – Dulce não parava de falar. Falava do curso, dos colegas de faculdade, da dificuldade em se adaptar etc. Falou também do que esperava de um homem. Queria um amor, queria um amante! Queria um companheiro! Não queria um provedor. Também não queria um galã de cinema. Só queria alguém pra amar e ser amada! Alguém com quem pudesse viver alguns de seus sonhos de adolescente. Finalmente chegamos em frente ao prédio onde morava, cerca de 30 andares, mais parecia um castelo. O castelo de Dulce. Minutos depois eu descobriria que não era bem assim.


Filha do interior do Ceará, Dulce foi criada, pra ser “moça de boa família”. Sua mãe a ensinou lavar, passar, cozinhar bem, e ainda fazer bordado! Fiquei estupefato! Ainda existem moças de 19 anos que aprenderam a bordar pra arrumar um “bom partido”. Sai de casa poucas vezes e quase sempre acompanhada de uma velha empregada da família ou da mãe. Comecei a entender sua história. Não morava exatamente um castelo, mas numa masmorra sempre a espera de um príncipe, mas não os dos contos de fadas. Mãe e filha esperavam coisas tão diferentes de um relacionamento. Uma espera amor a outra o via como uma possível consequência do casamento, acreditando que estabilidade financeira e conforto são mais importantes. Voltei pra casa intrigado e pensativo. O que as pessoas realmente esperam dos relacionamentos? O que é importante que o outro tenha para que eu decida amá-lo? Até que ponto realidades sociais, econômicas e culturais determinam minhas escolhas amorosas?

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Os "estacionamentos" e seus "guardadores..."

Sair de casa em períodos de grandes eventos e festas definitivamente não é uma boa idéia. O transporte público além de superlotado é quente, desconfortável e inseguro. Quando optamos por sair de carro mais dificuldades: não só o trânsito é um caos como encontrar um lugar pra estacionar é sempre uma tarefa que exige paciência, determinação e muito bom humor. Se não bastasse tudo isso, ainda temos que suportar o abuso e a intimidação dos chamados flanelinhas. Eles são uma mal que se espalhou pelo país já faz algum tempo, contudo, em períodos como o do carnaval eles se multiplicam e se tornam ainda mais perigosos. Parecem estar a cada ano mais organizados, uma verdadeira máfia. Em determinados locais eles usam um colete que os identificam e distribuem uma espécie de passaporte, fabricado artesanalmente, com valores que podem variar de R$ 3,00 a R$ 5,00 exigindo pagamento adiantado!

Dias desses quando questionei um deles, pois não agüentava mais aquela situação – eu e minha mania de questionar as coisas! – o tom da resposta foi bastante ameaçador. Segundo ele, estávamos pagando-o para “olhar o carro”, mas se não quiséssemos ele não poderia se responsabilizar por nada que acontecesse com o veículo. E quando eu estava prestes a dizer-lhe algumas coisas os amigos “deixa disso” não deixaram!

Sai sentindo-me lesado! Lesado pelo flanelinha que estava nos extorquindo. Quem era a maior ameaça naquela hora se não ele mesmo?! Senti-me lesado e desprotegido pelo Estado que cobra uma carga tributaria pra lá de pesada a fim de nos garantir proteção e inibir esse tipo de prática e não faz. Decepcionado com a população que não se posiciona diante de abusos como esses. Inclusive meus próprios amigos! Mas o que fazer? Se recusar a pagar? E depois que vai ressarcir o prejuízo causado pela não “prestação de serviço” do flanelinha?

O que me restou foi tentar aproveitar o carnaval assumindo o prejuízo diário com os “estacionamentos” e seus “guardadores”. Quem sabe um dia nossos impostos e nossa policia começam a funcionar e com isso possamos sair de casa mais tranquilos...

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

A difícil tarefa de ser...

Desde muito cedo nos acostumamos com alguém nos dizendo o que devemos fazer, querer e SER! Quando criança eram comuns comentários como: “Ele é tão fofinho...”, “O irmão é tão magrinho, como pode né?” ou pior, “Tiago é o gordinho?” Na adolescência, os comentários foram se transformando (pra pior, claro): “Tiago é tão bonitinho, pena que é gordinho”, “Tá vendo meu amor, os magrinhos ficam bem com qualquer roupa. Devia pensar em emagrecer”, “Como você quer que ela goste de você se você não emagrece?”. Naquele momento todos diziam o quê ou quem eu deveria ser, aquilo que eles consideravam o melhor pra mim (ou seria pra eles?) ignorando quem eu realmente era (sou). Com exceção de uma vizinha, que era considerada puta e devassa pelas demais, ninguém nunca me disse o contrário. Ela foi a primeira (e a única na minha infância) a me fazer enxergar quem eu realmente era. Penso quantos já passaram ou tem passado por experiências parecidas seja pelo peso, pela cor, orientação sexual etc.


A família é, sem dúvida, o primeiro referencial de valores e comportamentos e a responsável pela educação doméstica básica, que vai desde valores éticos e morais a certas convenções sociais necessárias (comer de boca fechada e não limpar o nariz em público são apenas algumas delas). Mas essa mesma família muitas vezes nos cerceia a liberdade de escolha em favor de uma moral ou das aparências. Acreditando que somos de fato sua extensão, no convívio familiar muitas vezes a individualidade é assunto ignorado. Com requintes de crueldade, criam-se mecanismos “legitimados” de punição e controle. Incentiva-se a hipocrisia e a vida dúbia. ”Você pode ser gay, desde que não deixe isso explicito para os vizinhos e não traga pra casa seu parceiro ou parceira”. Ele é gay, mas é boa pessoa, dizem alguns”. “Tão bonita, pena que é gorda”. “Coitada, ela ainda está solteira!”, “Ele até que é um preto bonitinho.” E pra citar só alguns exemplos.


Repensar a relação com o próprio corpo e conseqüentemente o conceito de beleza é fundamental para que se possa descobrir quem se é realmente . Porque tenho que ser magro e/ou malhado? Porque reduzir meu corpo a uma máquina de músculos? Por que cabelo bom é o liso e o ruim é o crespo? Por que sempre o sex symbol do momento nunca é negro ou negra?

Em algum momento de nossa vida, quando tentarmos romper com tudo isso – os que tiverem coragem, claro – perceberemos o quanto é difícil assumir controle da própria vida e o quanto é difícil fazer as próprias escolhas e assumir as conseqüências, sejam elas positivas ou negativas. Por outro lado, só assim poderemos desfrutar o que é liberdade. A sociedade, de um modo geral, não está preparada para aqueles que decidiram assumir a difícil tarefa de ser eles mesmos! Não podemos esperar ate que ela esteja. Ser eu mesmo implica no enfrentamento de conflitos internos e externos. Exige disposição e coragem para entrar em contato com as próprias feridas e traumas. Ser eu mesmo é não se desviar do espelho, mas olhar-se e como resultado admiração e amor! Ser eu mesmo é, sobretudo ser livre!

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Felicidade...

“Às vezes, quantas!... sinto um quer que seja, uma ligeira emoção, como um sorriso que vem despontando em minha alma. É talvez a felicidade, digo baixinho; e fico muda e estática para não perturbar dentro em mim esse débil raio que vai nascendo. Mas de repente some-se tudo, como se um abismo se abrisse: procuro minha alma nesse vácuo imenso, e não a sinto.”

Foi lendo este trecho de um dos romances de José de Alencar que me saltou à mente a parábola: que é a felicidade é como uma ilha paradisíaca admirada e desejada de longe por um marujo exausto de tantas viagens e quanto mais a deseja mais a vê afastar-se até que só reste a esperança de uma nova oportunidade.

À que se destinam todos os esforços e toda existência humana se não à busca da felicidade? A felicidade é o fim principal – e talvez único – de toda atividade humana. Por ela homens e mulheres trabalham arduamente dia e noite, pois esperam que o resultado de tamanho esforço lhes traga felicidade. É por ela também, que casais decidem partilhar suas vidas. Que religião não promete aos seus fiéis a felicidade como resultado de sua fidelidade? Todavia, irônica e tragicamente, o resultado tem sido contrário: nunca se trabalhou tanto e nunca se foi tão infeliz, nunca se viu tanta separação e as relações nunca foram tão efêmeras e superficiais. Muitos centros espíritas estão lotados bem como os templos católicos, protestantes, budistas e outros. Somos uma geração decepcionada com a religiosidade (com o cristianismo em especial?). Sabendo disso o mercado religioso descobriu seu principal produto: um discurso que promete a felicidade apesar de qualquer adversidade interna e externa, chegando muitas vezes ao que Nietzsche chamaria de alienante.

Em todo sonho e em todo desejo, em toda sociedade e em toda cultura, em toda crença e em toda ideologia existe algo de comum: o desejo de ser feliz!