Confesso que no colégio biologia nunca foi meu forte, portanto posso ser considerado um analfabeto funcional no que diz respeito a conhecida e amada (odiada por muitos também, claro!) Teoria da Evolução de Darwin. O fato é que se o processo de evolução não parou desconfio que logo (é questão de uns poucos milhares de anos), devido à seleção natural*, os seres humanos perderão um dos ouvidos e ganharão mais uma boca. Nesse caso talvez fosse apropriado chamar de Involução! Não conseguimos ouvir o outro. Estamos o tempo todo falando, falando, falando...
Pensemos! Quando foi a ultima vez que você conseguiu, em silêncio, parar por 15 minutos pra ouvir as dores e o sofrimento de alguém? Quando foi que percebeu que o outro estava sofrendo (isso não é nada fácil!) e disse: “Senta ai, meu camarada! Agora fala tudo o que esta te incomodando!”? Encontro dezenas de pessoas ávidas por alguém que as ouça, mas são raras as que querem ouvir! Talvez por isso o número de psicólogos vem aumentado tanto e por isso também as pessoas me pareçam mais infelizes. Afinal, porque as pessoas não ouvem? Tenho algumas suspeitas...
Corremos do problema alheio! Acreditamos que ouvi-los é assumi-los. No entanto, a maioria das pessoas ao falar não querem do ouvinte uma solução, apenas um ouvido. Não temos a obrigação de dar as respostas!
Vivemos em um mundo altamente competitivo e individualista. O meu sucesso, na maioria das vezes, depende do seu fracasso. Já temos problemas demais, não sobra espaço pro outro. O bem estar é pregado como um estado individual.
Vivemos na era da informação. São milhares e diversas e não sabemos o que fazer com a maioria delas. Logo, ouvir o outro é acumular mais informação e conseqüentemente problemas.
Diante disso, quem se dispõe a ouvir corre o risco de se sobrecarregar e não ser visto como alguém que também precisa ser ouvido. Ou a natureza cometeu um grande equívoco nos dando dois ouvidos e uma boca, ou estamos nos colocando contra a ordem natural das coisas!
*Só pra ajudar os desinformados como eu, segundo a Wikipédia (sei que não é muito acadêmico usar fontes como essa...), “seleção natural é quando características favoráveis que são hereditárias tornam-se mais comuns em gerações sucessivas de uma população de organismos que se reproduzem, e que características desfavoráveis que são hereditárias tornam-se menos comuns”, ou seja, a natureza se encarrega de dar cabo de algumas características não utilizadas pelos seres.
Eu a conheci na faculdade num encontro de alunos. No começo estava calada, com um ar distante. Talvez estive tímida. Afinal, éramos só alguns desconhecidos. Depois, sutilmente, Dulce começou a existir entre nós. Apresentamos-nos e trocamos mais algumas palavras. Seu sorriso não saia dos lábios enquanto falava. Seu olhar tinha um quê de sonhadora. A pouca altura e simpatia lhe davam um aspecto doce. Doce, não frágil! A sua beleza era diferente. Não vinha de um corpo esculpido com horas de malhação pesada. Nem de tratamentos intermináveis em salão de beleza. Também não andava como um cabide de grifes famosas. Quando voltávamos pra casa – nos descobrimos vizinhos – Dulce não parava de falar. Falava do curso, dos colegas de faculdade, da dificuldade em se adaptar etc. Falou também do que esperava de um homem. Queria um amor, queria um amante! Queria um companheiro! Não queria um provedor. Também não queria um galã de cinema. Só queria alguém pra amar e ser amada! Alguém com quem pudesse viver alguns de seus sonhos de adolescente. Finalmente chegamos em frente ao prédio onde morava, cerca de 30 andares, mais parecia um castelo. O castelo de Dulce. Minutos depois eu descobriria que não era bem assim.

